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26/06/2026

Crónicas do Golfe #9 - O Golfe como Escola de Vida


Quando pensamos no golfe, é natural que a nossa atenção se centre na técnica, na precisão ou na competição. No entanto, uma das maiores riquezas deste desporto encontra-se muito para além dos resultados e dos troféus. O golfe é uma poderosa ferramenta de formação pessoal, especialmente para crianças e jovens, ajudando a desenvolver um conjunto de competências de vida — as chamadas Life Skills — que terão impacto muito para além do campo de golfe.

Ao contrário de muitos outros desportos, o golfe coloca o praticante perante uma responsabilidade muito particular. Desde cedo, as crianças aprendem a tomar decisões, a lidar com as consequências das suas escolhas e a respeitar regras que dependem, em grande parte, da sua própria honestidade. Num jogo onde o próprio jogador é responsável por registar a sua pontuação e por reconhecer eventuais infrações às regras, valores como a honestidade e a integridade deixam de ser conceitos abstratos e passam a fazer parte da experiência diária. É por isso que vemos profissionais como Scottie Scheffler serem reconhecidos não apenas pelo seu talento, mas também pela sua postura ética e pelo respeito que demonstram pelo jogo.

O golfe ensina igualmente a importância do respeito. Respeito pelos adversários, pelos árbitros, pelos treinadores, pelo campo e pelas tradições do próprio desporto. A etiqueta que caracteriza o golfe obriga os jovens jogadores a desenvolver comportamentos de consideração pelos outros, aprendendo a esperar pela sua vez, a manter o silêncio quando necessário e a valorizar o esforço dos colegas. Jogadores como Jordan Spieth são frequentemente apontados como exemplos dessa atitude respeitadora e profissional que contribui para a imagem positiva do desporto.

Outro aspeto fundamental é a responsabilidade. No golfe não existem colegas de equipa a quem atribuir um erro nem substituições que permitam corrigir uma má decisão. Cada pancada é uma consequência direta das escolhas feitas pelo próprio jogador. Esta realidade ajuda as crianças a desenvolver autonomia, maturidade e capacidade de assumir os seus atos, competências essenciais para a vida académica, profissional e pessoal.

A própria natureza estratégica do jogo estimula a capacidade de julgamento e de tomada de decisão. Em cada buraco surgem novos desafios: avaliar riscos, escolher o taco adequado, interpretar as condições do vento ou decidir entre uma abordagem mais agressiva ou conservadora. Estas situações obrigam os jovens jogadores a pensar, analisar e decidir, desenvolvendo competências cognitivas que lhes serão úteis em qualquer contexto. Profissionais como Jon Rahm destacam-se precisamente pela qualidade das suas decisões sob pressão, demonstrando como o sucesso no golfe depende tanto da mente quanto da técnica.

Mas talvez uma das maiores lições que o golfe oferece às crianças seja a perseverança. Trata-se de um desporto onde o erro é inevitável, mesmo ao mais alto nível. Os melhores jogadores do mundo falham putts curtos, enviam bolas para obstáculos e atravessam períodos difíceis. Aprender a aceitar esses momentos e continuar a trabalhar para melhorar é uma das mais importantes aprendizagens que o golfe proporciona. A carreira de Gary Woodland, marcada por desafios e superação, é um excelente exemplo de resiliência e determinação.

Ao mesmo tempo, o golfe contribui para o desenvolvimento da confiança. Cada treino, cada objetivo alcançado e cada dificuldade ultrapassada ajudam a criança a acreditar mais nas suas capacidades. Esta confiança não nasce da arrogância, mas sim da preparação, do esforço e da experiência acumulada. Jogadores como Vijay Singh construíram carreiras de enorme sucesso assentes precisamente nessa confiança gerada por anos de trabalho consistente e disciplinado.

O golfe promove ainda a cortesia e o espírito desportivo, valores que parecem cada vez mais importantes numa sociedade frequentemente marcada pela pressa e pela competição excessiva. Cumprimentar os adversários, reconhecer uma boa jogada, saber vencer com humildade e perder com dignidade são comportamentos que fazem parte da cultura deste desporto. Arnold Palmer continua a ser uma referência mundial não apenas pelos títulos conquistados, mas pela forma exemplar como tratava todos aqueles que encontrava dentro e fora do campo.

Por todas estas razões, o golfe é muito mais do que um simples jogo. É um ambiente privilegiado para a formação do carácter e para o desenvolvimento de competências que acompanharão as crianças ao longo de toda a sua vida. Quando um jovem aprende a ser honesto, responsável, respeitador, perseverante, confiante e capaz de tomar boas decisões, está a adquirir ferramentas que serão tão valiosas na escola, na família e na futura carreira profissional quanto em qualquer competição desportiva.

Talvez seja por isso que hoje em dia tantas organizações educativas e programas de formação utilizam o golfe como veículo de desenvolvimento humano. O objetivo não é apenas formar melhores jogadores, mas sobretudo melhores pessoas. Porque um bom swing pode durar alguns anos, mas os valores aprendidos num campo de golfe podem acompanhar-nos para toda a vida.

Carlos Louro Guerreiro

Treinador de Golfe 

(http://golfelisboa.blogspot.com)


06/01/2025

Stance e Postura no Golfe



A postura à bola é muito importante porque controla tanto o plano do swing como o equilíbrio do jogador de golfe. Na minha opinião, a cabeça deve estar sempre atrás da linha vertical que sai da bola, os joelhos devem estar ligeiramente flectidos e o tronco inclinado de modo a que os seus braços alcancem naturalmente o topo do grip. O braço esquerdo deve estar firme o suficiente para formar uma linha recta com o grip do taco até à bola. Não se deve tensionar o braço direito mas sim dobrá-lo ligeiramente. Assim, naturalmente o ombro direito fica mais baixo que o esquerdo e o lado direito do corpo abaixo do esquerdo. 

Uma boa postura no golfe é composta por vários aspectos, a largura correcta do stance, a flexão correcta dos joelhos, o ângulo dos pés e a postura da coluna vertebral.

Um stance muito estreito impede o jogador de gerar potência no swing pela dificuldade de manter o equilíbrio. Por outro lado, se o stance for demasiado largo, o jogador vai ter dificuldade para transferir o peso do corpo durante o swing, sendo que essa transferência é essencial para gerar potência, ritmo e impacto com a bola. Para garantir a largura correcta do stance, pode-se medir a largura dos ombros utilizando um taco e verificar a mesma distância entre as partes internas dos pés. Esta distância deve ser utilizada para ferros. Para madeiras e Driver, essa distância deve ser aumentada em cerca de 5 cms. Para tacadas com ferros curtos/wedges e jogo curto (pitching e chipping) não precisamos de um stance assim tão largo e devemos reduzir a largura em cerca de 5 cms.




Evite abrir as pontas dos pés para fora num ângulo exagerado. O pé direito deve estar num ângulo recto em relação à linha do alvo e o pé esquerdo pode estar num ângulo para fora mas apenas ligeiramente. 


O peso do corpo deve ser distribuído 50/50 entre a ponta dos pés e os calcanhares, assim como 50/50 entre o pé esquerdo e o direito na maioria das tacadas. 


Uma postura correcta é assim crucial para tacadas consistentes, precisas e potentes na bola. Não necessita ser um atleta para conseguir uma boa postura com a bola. 

O swing de golfe é essencialmente um movimento de rotação do tronco em torno da coluna vertebral que não é mais do que o nosso eixo central. Quanto melhor a posição e o ângulo da nossa coluna na posição de address, melhor será durante todo o swing, especialmente no impacto.

As pessoas são todas diferentes e têm posturas naturais diferentes. Mesmo que a postura corporal possa não ser óptima quando está sentado ou em pé, com treino e consciência corporal pode muito bem criar uma postura muito eficiente sobre a bola de golfe.

Como devemos então colocar-nos à bola? 

Costumo dizer aos meus alunos para terem uma postura atlética idêntica à postura adoptada por um atleta de ski alpino, para ficarem em equilíbrio mas também preparados para realizar movimento tanto para a direita como para a esquerda. A inclinação do tronco para a frente deve vir das ancas, a parte inferior das costas (zona lombar) deve permanecer plana (ou seja, na posição neutra entre cifose e lordose) e alinhada com toda as coluna vertebral e cabeça. Na fisioterapia dizemos que a postura da coluna vertebral deve estar alinhada pelos 3 pontos: proeminência occipital, apófise espinhoso de D8 e Sacro. 

Os joelhos devem ficar levemente flectidos, evitando cometer um erro muito comum entre golfistas principiantes que é dobrar demasiado os joelhos. 

Como fisioterapeuta para além de treinador de golfe descobri que a coluna vertebral é um tema com o qual muitos jogadores tem dificuldade, muito pela falta de consciência corporal, o que impede muitas vezes de um jogador poder evoluir e jogar melhor.

Para estes jogadores, mesmo que lhes digam que não precisam estar tão curvados, ou que precisam de endireitar a parte superior das costas ou mesmo que estão muito direitos e precisam inclinar mais o tronco, eles simplesmente não conseguem porque não tem essa consciência.

Porque será que esta noção do corpo se fica só pela mente? Daí que os treinadores não tenham competência para corrigir estes problemas posturais e agem frequentemente como pais a reprimir uma criança, dizendo “endireita-te”.

A postura, tal como outros aspectos individuais, não é algo passível de ser alterada apenas por se pensar nela.

O jogador de golfe precisa de ter essa alfabetização postural. Depois de o conseguir, de ter essa consciência corporal, de conseguir por sua iniciativa activamente corrigir a posição das costas, os outros elementos para ter uma boa postura no address são fáceis de adicionar, como flectir os joelhos e corrigir a posição da cabeça. 

Se este é um tema que tem dificuldades, procure praticar yoga ou pilates como complemento ao golfe e em casos mais severos procure ajuda de um fisioterapeuta especialista em Postura como a técnica de Reeducação Postural Global ou Cadeias Musculares de L. Busquet. 

Nota: este artigo teve em conta um jogador dextro que joga à direita, o contrário será válido para um jogador esquerdino que jogue à esquerda. 

Este artigo poderá ser ouvido no Spotify em Golfe 100 Segredos.