🎙️ Golfe 100 Segredos
Episódio – Estatísticas de Jogo: como ganhar tacadas sem mudar o swing
Se eu te dissesse que podias baixar duas ou três pancadas sem melhorar o swing… acreditavas?
A maioria dos golfistas acredita que jogar melhor significa bater melhor na bola.
Mas no golfe de alta competição, os melhores do mundo sabem uma coisa essencial: ganhar tacadas é, acima de tudo, saber onde elas se perdem.
Hoje vamos falar de estatísticas de jogo, mas não daquelas que aparecem no cartão de volta. Vamos falar das estatísticas que mudam decisões, mudam treinos e, no fim, mudam resultados.
Bem-vindo a mais um episódio do Golfe 100 Segredos.
Durante muitos anos, o golfe foi analisado com números simples: fairways em regulação, greens em regulação, putts por volta.
E atenção — essas estatísticas não estão erradas.
Elas são… incompletas.
Vou dar-te um exemplo simples.
Imagina dois drives.
Um vai para o fairway, mas fica curto.
O outro vai para o rough, mas fica muito mais perto do green.
Qual foi melhor?
As estatísticas tradicionais dizem que o primeiro foi melhor.
O golfe real diz muitas vezes o contrário.
O mesmo acontece nos greens.
Um jogador faz green em regulação a 20 metros do buraco.
Outro falha o green, mas fica a dois metros.
Quem está em melhor posição para fazer par… ou birdie?
É exatamente aqui que entra a estatística mais importante do golfe moderno: Strokes Gained.
O Strokes Gained mudou completamente a forma como o golfe profissional mede performance.
A ideia é simples:
cada tacada é comparada com a média de jogadores do mesmo nível competitivo.
A pergunta não é “a bola foi para o fairway?”
A pergunta é: quantas tacadas, em média, são necessárias para acabar o buraco a partir desta posição?
Antes da tacada, existe um valor esperado.
Depois da tacada, existe outro valor esperado.
A diferença entre esses dois valores, descontando a tacada que foi feita, diz-nos se o jogador ganhou ou perdeu tacadas para o campo.
Não interessa se a tacada foi bonita.
Interessa se foi eficaz.
Vamos a um exemplo prático.
Um jogador está a 150 metros do green, no fairway.
A média de jogadores de alto nível precisa de cerca de 2,9 tacadas para acabar o buraco a partir dali.
Ele bate a bola e fica a 3 metros do buraco.
Dessa distância, a média precisa de 1,1 tacadas para acabar.
O cálculo é simples.
2,9 - 1,1 - 1 (a tacada realizada).
Resultado: ganhou 0,8 tacadas.
Essa foi uma grande aproximação.
Não porque ficou bonita, mas porque ganhou tacadas ao campo.
Agora o contrário.
Um drive sai do tee e vai para um rough profundo.
Antes da tacada, a média era 4 tacadas para acabar o buraco.
Depois, passa a ser 3,4.
4 - 3,4 - 1
Resultado: perdeu 0,4 tacadas.
E aqui está uma grande verdade do golfe moderno:
não há boas ou más tacadas, há tacadas que ganham ou perdem valor.
No final da volta, todas as tacadas somam-se e formam o Strokes Gained Total.
E esse total divide-se em quatro áreas fundamentais, que explicam praticamente tudo o que acontece num torneio de alto nível.
A primeira é o Strokes Gained Off-the-Tee.
Aqui entram todas as tacadas de saída em pares 4 e 5.
Esta estatística mede muito mais do que precisão.
Mede distância, posicionamento e, acima de tudo, vantagem estratégica.
Durante muitos anos, ensinou-se que o mais importante era meter a bola no fairway.
Hoje sabemos que isso nem sempre é verdade.
Jogadores longos, mesmo falhando alguns fairways, criam aproximações mais curtas, mais fáceis e mais agressivas.
O erro mais comum que vejo em jogadores competitivos é jogar demasiado defensivo do tee.
E os números mostram isso claramente.
A segunda, e talvez a mais importante de todas, é o Strokes Gained Approach.
São as tacadas para o green, fora de cerca de 30 metros.
Se há uma estatística que separa os bons dos excelentes, é esta.
Os dados da PGA Tour mostram uma correlação direta entre Strokes Gained Approach e vitórias.
Não é o putting.
Não é o jogo curto.
É a capacidade de bater boas aproximações, de forma consistente.
Se queres baixar handicap, se queres competir melhor, se queres ser mais sólido sob pressão… começa aqui.
A terceira área é o Strokes Gained Around-the-Green.
Chips, pitches e bunker shots.
Esta estatística não ganha torneios sozinha, mas evita perdê-los.
Em dias maus, em campos difíceis, quando as coisas não estão a sair bem, são estas tacadas que mantêm o jogador vivo no torneio.
É a diferença entre um bogey e um duplo.
Entre passar o cut ou ir para casa.
A quarta é o Strokes Gained Putting.
E esta é a estatística mais emocional de todas.
O putting é extremamente volátil.
Um jogador pode ser excelente a puttar numa semana e mediano na seguinte, sem ter mudado nada de técnico.
O putting decide torneios, sim.
Mas raramente constrói um jogador completo.
O grande erro é treinar putting como se fosse o principal problema, quando os números mostram claramente que as maiores perdas estão noutras áreas.
Agora, a parte mais importante: como analisar estatísticas corretamente.
Primeira regra: amostra suficiente.
Uma volta não diz nada.
Um torneio diz muito pouco.
É preciso analisar séries de dez, quinze, vinte voltas para começar a ver padrões reais.
Segunda regra: comparar com o nível certo.
Não faz sentido um amador comparar-se com estatísticas da PGA Tour.
Nem um jogador profissional comparar-se com um handicap médio.
As estatísticas só fazem sentido quando o benchmark é adequado.
Terceira regra, e talvez a mais importante: estatística serve para decidir, não para justificar.
Os números não são desculpas.
São guias.
Se perdes tacadas nas aproximações, a decisão é clara:
mais treino de wedges, médias distâncias e controlo de profundidade.
Se perdes tacadas do tee, talvez o problema não seja o swing, mas a estratégia de campo.
Estatística sem decisão é apenas curiosidade.
Os jogadores de alta competição fazem isto de forma exemplar.
Medem todas as tacadas.
Sabem exatamente onde ganham e onde perdem.
Treinam com objetivos claros.
Avaliam progresso ao longo do tempo, não por sensações.
Eles não treinam mais.
Treinam melhor.
E deixo-te com esta ideia final.
O golfe é um jogo difícil.
Mas torna-se muito mais simples quando deixamos de adivinhar e começamos a medir.
Porque no golfe moderno, quem entende os números… joga menos pancadas.
Obrigado por ouvires mais um episódio do Golfe 100 Segredos.
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e encontra-nos no próximo episódio, onde vamos falar de como transformar estatísticas em planos de treino eficazes.
Até lá… bom jogo ⛳🎙️