19/04/2026

Crónicas do Golfe #6: Aprender Golfe - o que facilita e o que atrapalha

Há quem diga que o golfe é simples: uma bola parada, um taco e um buraco imóvel à distância. Em teoria, nada foge. Na prática, foge tudo — principalmente a bola.

Aprender golfe é uma mistura curiosa de ciência, personalidade e circunstância. Não basta querer; é preciso ter o tipo certo de vida à volta do jogo. E, muitas vezes, aquilo que parece detalhe é o que decide tudo.

Quem vem de modalidades como ténis, hóquei, basebol, dança ou artes marciais chega ao golfe com um atalho invisível: coordenação, ritmo, equilíbrio, consciência corporal. Já sabem o que é repetir movimentos, falhar mil vezes e continuar. Aliás, há uma observação curiosa que raramente falha: um bailarino tende a aprender golfe mais depressa do que um “armário” de ginásio. Parece injusto, mas faz sentido. O swing precisa de fluidez, rotação e timing — não de força bruta. É quase como jogar com um casaco vestido. O bailarino usa um casaco flexível, leve, que acompanha o movimento. O culturista joga com um casaco de cabedal apertado: poderoso, mas rígido, a travar a rotação e a liberdade do gesto. No golfe, mobilidade vence músculo.

Quem nunca praticou desporto chega com outra bagagem: expectativas. E o golfe é cruel com expectativas. A bola não se impressiona com entusiasmo. Exige técnica, paciência e humildade. Há também uma ilusão comum: a de que o golfe não exige condição física. Não exige tanta explosão, é verdade, mas pede mobilidade, equilíbrio, rotação, resistência mental e resistência física. Quem passa o dia sentado e decide aprender golfe descobre músculos que não sabia que existiam — normalmente na forma de dores no dia seguinte. Pequenas limitações físicas não impedem ninguém de jogar bem, mas tornam a aprendizagem mais lenta. Flexibilidade das ancas e tronco, estabilidade e coordenação são ouro puro para um swing consistente.

Se tivesse de escolher apenas um fator determinante, seria a persistência. O golfe é um jogo de frustração atrasada. Falha-se muito antes de se acertar. E quando finalmente se acerta… volta-se a falhar. Quem precisa de recompensa rápida sofre muito. Há dois perfis que desistem cedo: os perfeccionistas impacientes e os entusiastas de curto prazo. Quem sobrevive é o persistente curioso, aquele que acha graça ao processo e aceita que melhorar milímetros pode demorar meses. No golfe, persistência vence talento quase sempre.

Há ainda um fator subestimado: ter um campo perto de casa é uma vantagem brutal. O golfe não se aprende em sessões intensas de fim-de-semana; aprende-se na repetição casual, na meia hora no driving range, nos nove buracos ao fim da tarde, nos putts treinados sem pressa. Se a ida ao campo exige logística, tempo e planeamento, a frequência cai — e quando a frequência cai, a evolução evapora. O golfe recompensa a proximidade.

Muitos tentam o caminho do autodidata. Ler livros ajuda. Ver vídeos ajuda. Observar jogadores ajuda. Mas há um limite duro: não conseguimos ver os nossos próprios erros. No golfe, o que sentimos raramente corresponde ao que fazemos. O swing que parece perfeito na nossa cabeça pode ser um caos biomecânico. Aulas não substituem a prática, mas poupam meses de frustração e anos de tentativa-erro. Um bom professor não ensina apenas técnica, ele dá o caminho certo da aprendizagem e da motivação — e motivação é combustível raro no golfe.

Depois há o ingrediente invisível: tempo. Não apenas horas, mas horas regulares. O cérebro precisa de repetir movimentos até deixarem de ser decisões conscientes. Treinar uma vez por mês é como tentar aprender uma língua viajando um fim-de-semana por trimestre: diverte, mas não transforma.

O maior obstáculo acaba por ser quase sempre o mesmo: expectativas irreais. Muitos começam a jogar imaginando progresso linear — hoje falho, amanhã melhoro, depois domino. O golfe não funciona assim. A evolução é irregular, cheia de regressões e pequenas vitórias invisíveis. Há semanas em que tudo funciona, seguidas de semanas em que parece que nunca se jogou. Quem aceita esta montanha-russa continua; quem não aceita, sofre.

No fundo, aprender golfe é menos sobre bater bolas e mais sobre criar condições: um corpo minimamente preparado, um campo acessível, orientação técnica, tempo regular e curiosidade persistente. Mas, acima de tudo, exige uma qualidade rara: gostar do caminho tanto quanto do resultado. Porque no golfe, o resultado demora. O caminho é imediato. E é aí que se decide quem fica.

Carlos Guerreiro - Fisioterapeuta e Treinador de Golfe

28/03/2026

Crónicas do Golfe #5: A primeira volta ao Campo

A primeira vez num campo de golfe nunca se esquece.

É um misto de entusiasmo, nervosismo e… uma ligeira sensação de “que estou aqui a fazer?”.

Depois de algumas aulas no driving range, onde tudo parece relativamente controlado, o campo de golfe apresenta-se como um mundo completamente diferente. De repente, já não há tapetes direitos, bolas perfeitas nem tempo ilimitado. Há relva natural, inclinações, obstáculos, pessoas a observar… e regras que parecem surgir de todos os lados.

Para um iniciante, o maior desafio não é técnico — é mental.

É lidar com a pressão de jogar mais devagar do que os outros, de falhar pancadas simples, de perder bolas, de não saber exatamente onde se deve estar ou o que se deve fazer a seguir.

Cada buraco parece um teste novo.

A saída no tee causa tensão, o ferro que no treino saía direito agora insiste em ir para o lado errado, e o green… bem, o green parece sempre muito maior na televisão do que na vida real.

Mas há algo importante que poucos dizem: todos os golfistas passaram por isto.

A primeira volta no campo é confusa para todos. É normal sentir-se deslocado, cometer erros de etiqueta, escolher mal o taco ou precisar de várias pancadas para chegar ao green.

O campo de golfe não perdoa, mas também ensina. Ensina humildade, paciência e respeito pelo jogo. Mostra-nos que o golfe não é sobre perfeição, mas sobre adaptação. Cada pancada é uma nova oportunidade de aprender — não de provar nada a ninguém.

Para quem está a começar, o segredo é simples:

jogar com expectativas baixas, observar mais do que falar, respeitar o ritmo do jogo e, acima de tudo, aproveitar a experiência.

Porque aquele nervosismo da primeira vez, aquelas pancadas falhadas e até aquela bola perdida… fazem parte da história de qualquer golfista.

E um dia, mais tarde, quando já estiveres confortável no campo, vais olhar para trás e sorrir.

Porque foi ali, nessa primeira volta difícil, que o golfe começou realmente para ti.

E depois dessa experiência o truque é simples:

intercalar o driving range com o campo.

Um para treinar, o outro para… sofrer com dignidade.

Mas para minimizar o sofrimento, há aqui algumas estratégias quase de sobrevivência:

Primeiro: escolhe bem os parceiros.

Evita jogar com alguém que diz coisas como “isso é psicológico” depois do teu quinto slice consecutivo.

Procura alguém paciente. Alguém que já tenha passado por isto e que, idealmente, ainda tenha amigos.

Segundo: horários calmos.

Nada de ir sábado às 10 da manhã, cheio de confiança e zero experiência.

Vai quando o campo está vazio. Assim, quando fizeres 9 pancadas num par 3… ninguém vê. Ou pelo menos… menos gente.

Terceiro: campos fáceis.

Planos, tranquilos, simpáticos.

Não precisas de um campo que te humilhe. Isso já o jogo faz naturalmente.

Mas no meio de tudo isto, há uma skill que ninguém treina no driving range:

saber estar no campo.

Onde ficar, quando jogar, quando desistir daquela bola impossível…

e, muito importante, manter o ritmo de jogo.

Porque no golfe há duas coisas imperdoáveis:

jogar mal… e jogar devagar.

Jogar mal, toda a gente perdoa.

Jogar devagar… nem sempre sais vivo.

E com o tempo, vais melhorando.

Começas a perder menos bolas… ou pelo menos a aceitá-lo melhor.

Começas a perceber o jogo, o ritmo, o ambiente.

E um dia dás por ti a olhar para um iniciante…

e a pensar: “coitado… nem imagina.”

Mas a verdade é esta:

todos começámos exatamente assim.

Confusos, nervosos… e com uma fé absurda de que aquela próxima pancada é que vai ser perfeita.

E sabes que mais?

Às vezes… até é.

19/03/2026

Crónicas do Golfe #4: Material para iniciar

 

Há uma fase muito curiosa na vida de quem começa a jogar golfe.

É aquela em que ainda não sabe bem fazer um swing… mas já passou duas horas na internet a ver drivers novos que prometem mais 30 metros.

Calma. Respire.

A boa notícia é esta: nas primeiras aulas não precisa comprar praticamente nada.

A maioria das escolas e treinadores têm tacos para emprestar.

Aliás, comprar um set completo no primeiro dia é um gesto corajoso… mas estatisticamente perigoso.

Não fosse o golfe um desporto com uma taxa de desistência considerável, e muitas arrecadações por esse país fora já não teriam sacos de golfe novinhos a apanhar pó.

Mas há um pequeno passo que quase todos acabam por dar cedo: a luva.

Sim, no golfe usa-se apenas uma luva.

E sempre na mão não dominante.

Ou seja:

destros → luva na mão esquerda

canhotos → luva na mão direita

A luva deve ficar justa, quase como uma segunda pele, mas sem cortar a circulação.

E felizmente é o investimento mais simpático do golfe: cerca de 10 a 15 euros.

Até aqui tudo controlado.

Mas depois de algumas aulas acontece algo inevitável:

começa a sentir o bichinho do golfe e é nesse momento que surge a grande decisão filosófica da modalidade:

Meio set… ou set completo?

Muitos começam por meio set.

Mas se o entusiasmo for sério, há uma forte probabilidade de mais tarde querer completar o resto.

Portanto, se o vício já começou… talvez valha a pena ir logo para o essencial.

Um primeiro set deve incluir:

Driver

Madeira ou híbrido

Conjunto de ferros (normalmente do ferro 5 ao pitching wedge)

Sand wedge

Putter

E claro, os acessórios obrigatórios do golfista civilizado:

saco de golfe

toalha

bolas

tees

reparador de pitch-mark

marcador de bola

Porque no golfe até levantar uma bola do green tem etiqueta própria.

Agora vem a grande pergunta:

Material novo ou usado?

A minha opinião é simples: usado de boa qualidade.

E por uma razão lógica: o seu golfe vai evoluir.

E quando evoluir… vai querer trocar de tacos.

Por isso gastar uma pequena fortuna no início raramente compensa.

Também não vale a pena fazer fitting completo nesta fase.

Primeiro convém bater na bola com alguma consistência… depois logo se afina o detalhe.

A única exceção é se for muito alto ou muito baixo — nesse caso o treinador facilmente percebe se precisa de tacos com comprimento diferente.

Para simplificar a escolha:

1- Ferros:

Opte por marcas conhecidas como Callaway, Ping, Titleist, Taylormade, Mizuno, Srixon, Cobra, Cleveland ou Wilson Staff.

Escolha modelos cavity back, que perdoam mais erros.

Evite blades no início.

Blades são tacos bonitos e bons… mas para jogadores profissionais ou de um dígito de handicap.

Se for um jogador sénior com mais de 50 anos aconselho varetas de grafite regular, se for jovem varetas de aço regular.

Um bom conjunto de ferros usados pode custar cerca de 150 a 200 euros.

2- Driver:

Na escolha de driver procure ter um loft de mais de 10⁰ com varetas flexíveis (regular) e leves com o peso próximo das 50 gramas para um jogador sénior e 65 gramas num jogador jovem.

Drivers usados de boa qualidade rondam 80 a 100 euros.

3- Sand Wedge: 

Entre 54º e 58º (o clássico é o 56º).

Um bom wedge usado pode custar cerca de 40 euros.

4- Putter:

Aqui entra a parte emocional do golfe.

Existem dois grandes estilos:

Blade (clássico)

Mallet (mais moderno)

O clássico Ping Anser, inventado em 1966, continua até hoje a ganhar torneios profissionais.

Não é má credencial.

Um bom putter usado pode custar cerca de 50 euros.

Mas atenção a um detalhe muito ignorado:

o comprimento do putter.

Cerca de 90% dos amadores joga com um putter demasiado comprido.

No circuito profissional a média anda nas 33 polegadas.

Nas lojas vendem-se sobretudo de 35 ou 36.

Curioso, não é?

5- Saco de golfe:

Para começar, o ideal é um saco leve com pernas (tripé).

Marcas boas incluem Ping, Sun Mountain, Titleist, Callaway, Ogio ou Taylormade — mas até a Inesis tem boas opções.

Um saco usado em bom estado pode custar cerca de 70 euros.

6- Sapatos:

Quando começar a jogar no campo, os sapatos passam a ser indispensáveis.

Se quiser começar sem gastar muito, os da Inesis rondam os 50 euros.

Se quiser mais estilo, as referências clássicas são Ecco, FootJoy, Adidas ou Lambda.

7- Bolas:

No início… bolas usadas chegam perfeitamente.

Aliás, jogar com bolas caras como Titleist Pro V1 quando ainda estamos a perder três por buraco é quase um gesto de filantropia para a natureza.

Bolas usadas custam cerca de 50 cêntimos.

Mas atenção: nunca usar bolas do driving range no campo.

É proibido… e os marcadores reparam, é vergonhoso!

Onde comprar material usado?

Sites como OLX podem ter boas oportunidades.

Mas convém fazer algumas perguntas simples:

porque está a vender?

onde jogava?

qual era o handicap?

Se quiser ir mais longe pode até pedir o número de federado e confirmar no site da federação.

Em cinco minutos percebe se está a falar com um golfista… ou com alguém que “achou” material interessante.

Também muitas lojas de golfe vendem material usado já verificado.

No final das contas, é perfeitamente possível montar um set completo de boa qualidade por cerca de 300 euros.

Comparado com um set novo topo de gama — que facilmente ultrapassa 2000 euros — é quase uma lição de gestão financeira.

E a verdade é esta:

No golfe moderno houve grandes evoluções em drivers e bolas.

Mas muitos ferros feitos depois dos anos 2000 continuam excelentes.

E no caso dos putters, muitos dos designs usados hoje nasceram há mais de 50 anos.

Portanto não se preocupe demasiado com o material.

Porque há uma verdade universal no golfe:

os tacos raramente são o problema. 

Como diz o outro, não sabem dançar e a culpa é dos sapatos... Ou da sala que está torta! 

No golfe as desculpas podem até ser muitas, mas pelo material depois de ler isto já não tem desculpa.

Boas tacadas!

15/03/2026

Crónicas do Golfe #3 - Curso de iniciação




Após a primeira experiência de golfe surge quase sempre um pensamento… perigoso.

“Eu acho que já posso ir para o campo.”

É um pensamento clássico.

Normalmente aparece depois de três boas pancadas seguidas no driving range.

Ou depois de um amigo muito otimista dizer:

“Isso já está ótimo… vamos jogar!”

E é precisamente aqui que entra uma das melhores invenções do golfe:

o curso de iniciação.

Porque no golfe existe uma pequena diferença entre acertar na bola… e saber jogar golfe.

É nestes cursos que se descobre que afinal existe bastante ciência por trás daquele movimento aparentemente simples.

Primeira surpresa: a postura.

De repente percebemos que jogar golfe não é simplesmente dobrar as costas e bater na bola.

Há ângulos, equilíbrio, peso distribuído…

Quase parece uma aula de yoga.

Só que com tacos.

Depois vem o stance — onde colocar os pés.

À primeira vista parece algo simples.

Mas é o tipo de detalhe que consegue transformar uma tacada elegante numa bola que decide ir visitar… o estacionamento.

Ou a esplanada do club house.

Segue-se o grip.

Segurar num taco parece trivial…

até descobrirmos que existe uma forma correta de o fazer…

e várias formas criativas de fazer tudo completamente errado.

E quando já estamos a pensar que o golfe se resume a dar pancadas na bola, descobrimos que afinal existem vários tipos de tacadas.

O putting — quando a bola já está no green e rola tranquilamente em direção ao buraco… ou passa um metro ao lado.

O chipping — aquela pancadinha delicada perto do green, que voa pouco e rola depois.

O pitching — uma pancada de aproximação com voo mais alto, que aterra no green e trava rapidamente.

E claro, o famoso full swing — a tacada completa…

que às vezes é tudo menos completa.

Ou seja, aquilo que parecia um gesto simples transforma-se numa verdadeira coleção de movimentos, cada um com a sua técnica, o seu timing…

e as suas surpresas.

Para ajudar quem começa, existe até um programa muito bem pensado da Federação Portuguesa de Golfe: as famosas “9 semanas e meia”.

Sim, o nome lembra imediatamente um certo filme clássico…

mas neste caso o romance é com o golfe.

Durante estes cursos — em grupo ou individualmente — os novos jogadores vão descobrindo, passo a passo:

como bater melhor na bola

como controlar a direção

como jogar perto do buraco

e, talvez ainda mais importante…

como sobreviver psicologicamente a uma má pancada.

Porque um curso de iniciação não serve apenas para ensinar técnica.

Serve para algo ainda mais importante:

evitar sofrimento desnecessário no campo.

Sem essas bases, ir diretamente para um campo de golfe pode ser uma experiência… educativa.

Para o próprio…

e um filme de terror para todos os que estão a jogar atrás.

No fundo, fazer um curso de iniciação é como aprender a conduzir antes de entrar numa autoestrada.

E depois de terminado o curso, há uma coisa que é quase garantida:

a bola continua a fazer coisas estranhas…

Mas pelo menos já sabemos porquê.

E no golfe…

isso já é metade do caminho.

13/03/2026

Crónicas do Golfe #2: Os que desistem e os que persistem



Depois da primeira aula de golfe acontece uma coisa curiosa: as pessoas dividem-se em dois grupos muito distintos.

Os que dizem:
“Foi giro, temos de repetir um dia destes.”

E os que dizem:
“Quando é a próxima aula?”

É uma diferença subtil… mas decisiva.

Porque experimentar golfe é fácil. Continuar é outra história.

O primeiro obstáculo costuma ser o mais visível: o equipamento. De repente descobre-se que não basta “um taco e uma bola”. Há drivers, ferros, wedges, putters, sacos, luvas, tees… e aquela sensação de que, se não tivermos pelo menos metade da loja de golfe connosco, estamos mal preparados.

Depois vêm as aulas. Quem começa percebe rapidamente que melhorar sozinho é possível… mas difícil e demorado. As aulas ajudam, mas também obrigam a compromisso — de tempo e de investimento.

E depois aparece uma palavra que muitos principiantes nunca tinham ouvido: handicap.
Para quem está de fora, parece quase um código secreto necessário para entrar em certos campos.

Mas curiosamente, estes não são os obstáculos mais difíceis.

Os verdadeiros desafios são outros.

Falta de tempo.
Campos longe de casa.
Agendas que não encaixam.
A ideia de que “só vale a pena se alguém for jogar comigo”.

E aqui entra um dos grandes equívocos sobre o golfe: muita gente acha que precisa sempre de companhia.

Mas o golfe é provavelmente um dos desportos mais independentes que existem. Pode jogar-se sozinho, ao ritmo de cada um, sem depender de equipas, horários complicados ou adversários disponíveis.

O problema é que jogar sozinho exige uma coisa rara: iniciativa.

E depois há o fator mais silencioso de todos: a frustração.

Porque no golfe ninguém melhora de forma linear. Um dia tudo corre bem. No seguinte parece que nunca agarramos num taco de golfe. É um desporto que testa a paciência, a persistência e a capacidade de rir de nós próprios.

Algumas pessoas não gostam dessa sensação.

Outras… ficam fascinadas por ela.

São essas que continuam. As que aceitam que o golfe não é sobre perfeição, mas sobre progresso. As que conseguem sair do campo depois de 100 pancadas e ainda assim lembrar-se daquele único ferro perfeito que valeu a pena.

E sem dar por isso, essas pessoas começam a organizar o tempo de forma diferente. Arranjam maneira de passar pelo campo “só meia horinha”. Começam a reconhecer os mesmos rostos no clube. E um dia percebem que o golfe já não é apenas uma experiência.

Passou a ser um hábito.

Ou, como muitos golfistas gostam de dizer…
um pequeno vício saudável.

E assim, discretamente, nasce mais um jogador de golfe.

Carlos Louro Guerreiro - Treinador de Golfe

Crónicas do Golfe #1: A primeira aula de golfe


Toda a gente que vai à primeira aula de golfe acha que já percebe qualquer coisa do assunto.

Afinal, já viu golfe na televisão. Já viu aquele movimento elegante, o jogador a rodar, a bola a sair perfeita e a desaparecer no horizonte. “Isto parece tranquilo”, pensam. “É só dar uma pancada na bola.”

Não é.

O primeiro sinal de que a expectativa não bate certo com a realidade é a roupa. Há sempre alguém que aparece como se fosse jogar o Masters: polo impecável, boné novo, luva branca. Parece que vai entrar diretamente para o circuito profissional.

Depois há o outro extremo: o que aparece de ténis de corrida, t-shirt de ginásio e a ideia firme de que golfe “não é bem desporto”. Cinco swings depois já está a suar e a perceber que afinal mexe com músculos que nem sabia que existiam.

E então chega o momento mágico: a primeira tentativa.

A pessoa aproxima-se da bola com confiança. Alinha o corpo. Olha para a bandeira como quem já imagina a trajetória perfeita. Faz um swing cheio de convicção…

…e falha a bola.

Ou acerta no chão primeiro. Ou a bola anda dois metros e meio. Ou vai tanto para o lado que desaparece das laterais do Driving Range.

É aqui que começa a verdadeira iniciação ao golfe: a descoberta de que a bola está parada… e mesmo assim é difícil acertar-lhe bem.

Mas também é aqui que nasce o vício.

Porque, de repente, no meio de várias tentativas estranhas, acontece um momento raro: um contacto limpo, a bola sobe bonita, voa direita e durante dois segundos a pessoa sente-se um génio do desporto.

E pensa:

“Ok… afinal eu tenho jeito para isto.”

Mal sabe ela que o golfe tem uma habilidade extraordinária: dar-nos exatamente um bom golpe suficiente para voltarmos no dia seguinte.

E assim começam muitas histórias no golfe — não com perfeição, mas com uma mistura maravilhosa de expectativa, humildade e aquela primeira bola que finalmente voa como imaginámos.

No fundo, a primeira aula de golfe ensina duas coisas muito depressa:

O golfe é muito mais difícil do que parece.

E muito mais divertido também.

Carlos Louro Guerreiro 

28/01/2026

Como preparar a época de Golfe (Pré-época)

 


🎙️ Preparação da Época de Golfe – O Que Separa os Bons dos Jogadores de Alta Competição

Quando falamos de golfe de alta competição, a época não começa no primeiro torneio.

Começa muito antes — na preparação.

A diferença entre um bom jogador e um jogador de alta competição raramente está apenas no swing. Está no planeamento, na consistência e na forma como cada detalhe é trabalhado antes da época arrancar.

A preparação da época é o momento de construir bases sólidas.

É aqui que se corrigem fragilidades, que se ganha vantagem competitiva e que se evita andar toda a época a “apagar fogos”.

O primeiro pilar é o planeamento.

Um jogador de alta competição não treina ao acaso. Define objetivos claros: técnicos, físicos e competitivos. Quantos torneios vai jogar, quando precisa de picos de forma, quando deve descansar. Sem plano, não há performance sustentável.

Depois vem o trabalho técnico.

A pré-época é o melhor momento para ajustar o swing, melhorar o controlo de distância, afinar o jogo curto e consolidar padrões. Durante a época competitiva, o foco é jogar bem — não reconstruir movimentos.

O terceiro pilar é o jogo curto e o putting.

Em alta competição, é aqui que se ganham ou perdem torneios. A preparação da época deve dedicar uma percentagem significativa do tempo a estas áreas, porque são elas que salvam voltas em dias menos inspirados.

Mas há algo que muitos ainda subestimam: a preparação física.

Força, mobilidade, estabilidade e resistência são fundamentais para manter consistência ao longo de uma época inteira. Um corpo bem preparado protege o swing, reduz lesões e mantém a qualidade da pancada sob pressão.

E claro, a preparação mental.

Alta competição é gestão emocional. É saber lidar com más voltas, más pancadas e más semanas sem perder confiança. Visualização, rotinas, controlo do foco e capacidade de competir consigo próprio são treináveis — e devem ser treinados.

Por fim, a simulação competitiva.

Antes da época começar, é essencial criar contextos de pressão no treino: jogos com objetivos, penalizações, voltas de treino como se fossem torneios. Porque competir não se improvisa.

A preparação da época É disciplina. É repetição. É compromisso #golfe